IA · 2015 · 7 min

A Internet das Coisas e o reinado das APIs

DO ARQUIVO · 2015 Escrito em 2015, no auge do hype de IoT. O argumento central — que o valor não estava nos dispositivos, mas na camada que os conecta, e que a tecnologia precisava sair do feudo de TI para gerar valor — é o mesmo que hoje sustenta minha leitura sobre a adoção de IA.

Estamos no momento máximo de popularidade do assunto “Internet das Coisas” (Internet of Things – IoT). É fácil perceber isto pela quantidade de artigos que se proliferam pela internet a respeito do tópico ou assuntos relacionados. Esta popularidade foi confirmada pela última edição do Ciclo de Tecnologias Emergentes publicado pelo Gartner em agosto de 2014. A partir dos próximos meses veremos um declínio natural das discussões a respeito, mas diferente de alguns “wearable devices”, como o Google Glass, este é um foco de estudos em produtos em tecnologia que veio para ficar e já ganhou um novo termo: Internet de todas as coisas (Internet of Everything – IoE).

De forma geral, dispositivos conectados irão se popularizar principalmente no mundo corporativo em função do tremendo potencial na distribuição de dados e informações coletadas de todas as formas possíveis. Nós ainda estamos entrando em uma era de big data na coleta de informações e as possibilidades são infinitas.

A infraestrutura invisível do hype

O que pouco se fala nas inúmeras reportagens que se proliferam a respeito do tema é que, talvez mais importante do que a capacidade de processamento ou armazenamento de informações é a capacidade de transmissão de dados entre os dispositivos e os softwares de gerenciamento, que vão desde sistemas satélites desenvolvidos especificamente para determinada finalidade até softwares de gestão empresarial (ERPs).

Toda esta comunicação entre sistemas e dispositivos ocorre através de APIs, acrônimo de Application Programming Interface ou, em português, Interface de Programação de Aplicativos. APIs são rotinas desenvolvidas para permitir a comunicação e transmissão de dados entre sistemas de tecnologia diferentes ou entre dispositivos (as “coisas” ou “things” do termo IoT) e os softwares responsáveis por acumular e gerenciar as informações coletadas.

“APIs são um dos pilares fundamentais para que a Internet das Coisas tenha sucesso.” — Raine Bergstrom (Intel)

Abaixo um gráfico extraído do site ProgrammableWeb, referência reconhecida e maior repositório para publicação de APIs desenvolvidas, que demonstra de forma clara a evolução no desenvolvimento de APIs documentadas no site desde 2005:

Quando a API sai do feudo de TI

Ao longo dos últimos 20 anos, participei de perto de uma evolução notável:

  • APIs estão cada vez mais se tornando ativos empresariais do mundo corporativo.
  • Gradativamente, APIs estão saindo do “domínio” das áreas de TI, passaram a adotar protocolos e padrões de desenvolvimento abertos e se tornaram recursos sob gestão das áreas de negócio, produtos e P&D.
  • As APIs deixaram de ser “vilões” e “fatores de risco” em projetos em TI. Já houve um tempo em que as áreas comerciais de empresas de software de gestão empresarial (ERPs) utilizavam o discurso de oferta de uma “solução única”. Com as fusões e aquisições no segmento de softwares e a proliferação de soluções especialistas de alto nível, este discurso se tornou ultrapassado.
  • Não só em função da Internet das Coisas (IoT), mas também pela tendência de componentização no desenvolvimento de software, cada vez mais veremos soluções acopláveis através de APIs em quaisquer módulos de um sistema de gestão empresarial ou software especialista, tornando parcerias estratégicas no mundo de TI cada vez menos dependentes das áreas de tecnologia.

Gerir APIs como ativo de negócio

No excelente artigo “API economy – From systems to business services”, elaborado por George Collins e David Sisk, parte integrante do sexto anuário de tendências tecnológicas da Deloitte Consulting publicado em fevereiro deste ano, os autores passam rapidamente pelo histórico do surgimento das APIs e apontam tendências para o futuro, traduzo abaixo um parágrafo e um infográfico extraído por eles do site ProgrammableWeb e publicado no artigo:

A Evolução das APIs

A ideia por trás das APIs existe desde os primórdios da computação, entretanto nos últimos dez anos, elas vêm crescendo significativamente não só em número, mas também em sofisticação. APIs estão incrivelmente escaláveis, monetizáveis e presentes em todo o lugar, com mais de 13400 listadas no site ProgrammableWeb, que gerencia um diretório global de APIs.

O artigo é leitura obrigatória para qualquer CIO que administra áreas de desenvolvimento, em especial para este público, Collins e Sisk expressam os requisitos fundamentais para uma gestão madura de uma biblioteca de APIs. Eles recomendam que (em tradução livre e complementada para melhor entendimento):

  • No desenvolvimento, implementação e controle de APIs, ocorra um controle rígido sobre versionamento, documentação didática e acessível e clareza de escopo e propósito.
  • Na segurança, monitoramento e otimização de uso: exista um controle de acesso, políticas de segurança, roteamento e “caching” eficientes, controle de limites para taxas e cotas de uso e implementação de ferramentas de análise estatística de uso.
  • No mercado, suporte e monetização da API como um ativo empresarial: políticas comerciais, precificação e gerenciamento de vendas, medições, faturamento de uso e a disponibilidade e controle de chaves ou tokens (para atender normas de segurança e governança corporativa).

Para os CIOs que ainda não entenderam a importância de seus papéis nas áreas de negócio, pode causar desconforto a preocupação de Collins e Sisk em expor que iniciativas centradas exclusivamente nas áreas de TI podem ser danosas, no artigo eles alfinetam que os líderes de tecnologia devem evitar exercícios “dourados” isolados dentro das áreas de TI para evitar “flashbacks” das bem-intencionadas, mas malsucedidas iniciativas SOA da última década.

A tendência é que, com a maturidade na orquestração do uso de dispositivos inteligentes em quaisquer ambientes, as APIs se tornem a espinha dorsal de novas oportunidades no mundo corporativo (não só para as empresas de software). Collins e Sisk citam os comentários de Raine Bergstrom, Vice Presidente e Gerente Geral de Produtos de Software da Intel: Bergstrom afirma que “as empresas vão adotar a Internet das Coisas, ou talvez fiquem para trás”. Ele também argumenta que as “APIs são um dos pilares fundamentais para que a Internet das Coisas tenha sucesso”.

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