Beyond Work

O que eu faço fora do trabalho explica, de certa forma, como trabalho.

Meu computador atual eu montei sozinho, ao longo de um cronograma de três anos — uma sequência deliberada de upgrades para administrar o orçamento sem abrir mão da qualidade, peça por peça, até chegar à máquina que eu queria para o longo prazo. Foi ela que me acompanhou no MBA em Data Science, IA & Analytics: treinar modelos, rodar pipelines sobre bases grandes, usar a GPU sem esbarrar em limite de hardware. O prazer de planejar essa arquitetura é o mesmo que sinto ao desmontar um problema complexo no trabalho: entender por que cada componente está ali e o que acontece quando você troca um deles.

Jogo no PC, mas de um jeito específico. Nada de disputas frenéticas: o que me atrai são jogos de estratégia e construção, em que estudo minuciosamente a mecânica antes de me comprometer com um plano. Como a semana pertence aos estudos, o jogo virou ritual de fim de semana — o descanso obrigatório de quem passa os dias mergulhado em IA e transformação. Minhas campanhas se estendem por meses: prefiro conduzir uma estratégia desenhada com calma — não queimar horas em sessões compulsivas.

Cuido de uma rotina com disciplina — musculação, spinning, alimentação estruturada — não por culto à performance, mas porque um corpo organizado me ajuda a manter a cabeça organizada. O mesmo vale para os pequenos cuidados do dia: gosto das coisas bem-feitas, e atenção ao detalhe, para mim, não é luxo.

Minha esposa é pedagoga, estuda neurociência na pós-graduação e desenvolve livros infantis criativos. Nesse projeto, sou o coach de tecnologia dela: desenho trilhas de aprendizado, apresento ferramentas — e algumas das formações que faço hoje, fazemos juntos. Descobri que explicar IA para quem pensa em desenvolvimento infantil me obriga a um nível de clareza que nenhuma reunião executiva exige.

Minhas duas filhas moram na Europa, uma em Colônia e outra em Paris, e boa parte do meu planejamento gira em torno de estar perto delas. Este ano fizemos uma viagem em família pela França e pela Alemanha, com uma passagem por Roma num stopover programado — o tipo de coisa que organizo com o mesmo cuidado minucioso que dedico a um projeto. Mas, dessa vez, as melhores guias foram elas. Nas cidades que conhecem como ninguém, minhas filhas conduziram o reencontro com uma generosidade que me lembrou qual é, de fato, o projeto mais importante que tenho.

Se há um fio comum entre o computador, os jogos, os estudos e as viagens, talvez seja este: gosto de entender como as coisas funcionam por dentro, e gosto de fazê-las com cuidado. No trabalho ou fora dele, é o mesmo sujeito.

A família Lustosa em viagem pela Europa
EUROPA · EM FAMÍLIA