Há uma conversa acontecendo no mercado corporativo em que os dois lados falam línguas diferentes, e nenhum dos dois está errado. De um lado, empresas de tecnologia levando IA ao mercado com a urgência de quem responde a um ciclo trimestral de vendas. Do outro, executivos que ouvem, aprovam um piloto, e seguem sem saber por que aquilo importa para o negócio que dirigem. Passei vinte anos do lado de quem apresenta e conheço esta mecânica por dentro: ninguém está empurrando nada. Cada um está fazendo exatamente o que o próprio sistema de incentivos exige — e é por isso que o vácuo entre os dois não se fecha sozinho.
O sintoma mais visível é o tipo de prova que circula. Os verbos são sempre os mesmos: acelerar, reduzir, cortar. Todos incidem sobre processos que já existiam antes da IA e que ninguém pensou em questionar. É promessa honesta e o ROI é real. Mas todo verbo desses carrega uma pressuposição silenciosa: a de que aquele processo deveria existir. Será? Nenhum dos dois lados da mesa tem mandato para perguntar isso. Quem decide quer saber se a ferramenta se paga. Do outro lado, a pergunta é ainda mais estreita: se o case convence o suficiente para autorizar o próximo passo. São perguntas honestas, e nenhuma delas é a que importa.
Há uma razão pouco confortável para isso. O mercado fala de IA em nível tático porque ainda não sabe falar de outra forma. Não existem — salvo raras exceções — teses setoriais maduras sobre como a IA reorganiza cadeias de valor, redistribui margem, altera barreiras de entrada, redesenha a estrutura de custo de um segmento específico. Sem essa tese, não há lastro. E sem lastro, a decisão de investimento em IA deixa de ser capital alocado contra uma hipótese de negócio e vira outra coisa: uma linha de orçamento tecnológico que precisava ser consumida antes do fechamento do ano fiscal; uma resposta à pressão do conselho e do próprio mercado por sinais de inovação; e, no fundo, a necessidade de sentir que se está inovando. Investe-se em IA como quem compra seguro contra a própria irrelevância.
Melhorar processos e entregar ganhos visíveis é como qualquer organização séria constrói credibilidade para o passo seguinte. Não estou questionando a legitimidade dessas motivações — pelo menos nas salas em que estive, elas costumam ser sinceras. Só que nenhuma delas chega a ser uma tese. Nenhuma delas responde onde a empresa vai competir agora que a IA já não é vantagem de ninguém. Ela já é piso, só que um piso que ninguém assentou. Enquanto o comitê discute o piloto, a organização já decidiu por conta própria.
O Data Breach Investigations Report 2026 da Verizon, 19ª edição de um levantamento construído sobre mais de 31 mil incidentes de segurança, registra que, em um único ano, a parcela de funcionários que recorre a IA não aprovada triplicou — de 15% para 45% — e que isso está ampliando o vazamento de dados corporativos.
Chama-se Shadow AI. O rótulo importa pouco. O que ele expõe é que a governança chegou atrasada: as pessoas já usavam a ferramenta muito antes de alguém decidir que ela seria usada.
O resultado é o vácuo. A tecnologia chega antes da tese. A ferramenta chega antes do problema. E a IA, que deveria ser meio a serviço de uma estratégia que existe sem ela, é tratada como fim: como destino, como projeto que se justifica por si mesmo. É aqui que meu inconformismo se instala. Não com a tecnologia — gosto dela, trabalhei a vida toda com ela. O que me incomoda é o quanto nos acostumamos a tratar a maior mudança estrutural desde a digitalização como se fosse um upgrade de ferramenta.
É nesse vácuo que escolhi trabalhar. Não porque tenha a tese pronta — não tenho, e desconfio de quem diz ter. Mas porque a pergunta que ninguém faz na sala é a única que me interessa, e porque alguém precisa fazê-la antes que a próxima rodada de pilotos seja aprovada.
Nenhuma organização se transformou porque comprou software. Elas se transformam quando mudam como decidem, quem decide, e sobre o que decidem. A IA só entra nessa conversa depois — e só entra se alguém tiver feito o trabalho difícil de responder antes: para quê?
Referência
VERIZON. Data Breach Investigations Report 2026. Nova York: Verizon Business, 2026. Disponível em: https://www.verizon.com/about/news/breach-industry-wide-dbir-finds. Acesso em: 9 jul. 2026.